Aldeia à margem da BR

29/08/2012 14:42

 

Índios estão preparados para ficar por muito tempo no local. Enquanto reivindicações não forem atendidas bloqueio será constante

Guilherme Silveira/DC
Manifestantes foram divididos em grupos, cada qual com sua função. Existem equipes formadas para alimentação, segurança e limpeza

Escrito:Por RODRIGO VARGAS            Fonte:Diário de Cuiabá
Fartos estoques de mantimento. Mais de 3.000 litros de água mineral. Caminhões, camionetes e carros de passeio de prontidão. Dezenas de barracas de camping e redes de dormir. Equipes atuando em turnos nas funções de segurança, limpeza e cozinha.

Organizados de maneira inédita, os índios de seis etnias que bloquearam a BR-364 (na saída para Rondonópolis, junto à ponte do rio Aricá) nunca estiveram tão preparados para cumprir a ameaça de manter um protesto “por tempo indeterminado”.

"Aqui nós vamos permanecer até quando tiver o último grão de arroz e a última raiz de mandioca. E vai demorar até isto ocorrer", afirmou o líder paresi Genílson Kezomae.

O protesto ocorre nos mesmos moldes na BR-174 (nas proximidades de Comodoro) e exige a revogação da portaria 303, editada pela AGU (Advocacia Geral da União).

A portaria, que reproduz o parecer do STF (Supremo Tribunal Federal) durante o julgamento do caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, trata do veto à ampliação de terras demarcadas e ainda prevê a revisão de processos já conclusos de demarcação.

Publicada em 16 de julho, a norma foi suspensa por 60 dias após a repercussão negativa entre as entidades representativas e lideranças indígenas.

“É uma portaria que fere nos nossos direitos e ainda abre a possibilidade de redução nas terras indígenas. O governo quer tirar nossos direitos”, criticou Kezomae.

Segundo ele, a AGU extrapolou suas funções. “Permitir que a AGU possa fazer leis e diretrizes, é uma aberração. Isso é prerrogativa do Congresso Nacional. O papel de AGU é pegar a lei vigente e trabalhar.”

Até o final da tarde de ontem, o bloqueio na BR-364 já havia gerado uma fila de caminhões de mais de 25 quilômetros apenas no sentido Cuiabá-Rondonópolis. No início da manhã, os índios concordaram em liberar o tráfego nos dois sentidos da rodovia por uma hora.

“Recebemos a informação de que havia várias crianças presas no bloqueio, então resolvemos liberar. O nosso objetivo não é maltratar o caminhoneiro e os outros usuários, mas foi o governo Federal que impediu qualquer diálogo”, disse.

Caminhoneiros parados na fila mantinham a esperança de um novo desbloqueio, ainda que parcial. O paresi Arnaldo Zunizakae, 40, disse apenas que a possibilidade seria discutida em assembleia na noite de ontem.

“A princípio, não haverá novo desbloqueio e o nosso conselho é que não venham para cá apostando nisso”, avisou.

Segundo ele, o protesto é o mais organizado já feito em conjunto pelas etnias de Mato Grosso. “Isso é um sinal claro de que as coisas estão mudando. Os indígenas estão se mobilizando, e não apenas em Mato Grosso, mas em todo o Brasil.”

O líder manifestou descontentamento com os 10 anos de gestão petista da questão indígena. “Quantas áreas foram demarcadas depois que o PT chegou ao governo? Somente Raposa Serra do Sol, e debaixo de muita pressão.”


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