Por oferecer maior segurança, CFM recomenda partos emambiente hospitalar

11/08/2012 07:40

 

Fonte:Jornal Dia Dia

Após analisar estudos, os conselheiros chamam a atenção paraos riscos de mortalidade e de morbidade envolvendo partos realizados fora dehospitais

Após análise criteriosa de estudos científicos realizados no Brasil e no exterior, o plenário do Conselho Federal de Medicina(CFM) decidiu recomendar aos médicos e à sociedade a realização dos partos emambiente hospitalar de forma preferencial por ser mais segura. 

"As mortesmaternas e perinatais podem ser evitadas com adoção de medidas no âmbito daprevenção e da atenção, o objetivo do CFM ao se manifestar foi apontar aexistência de uma zona de conforto, menos exposta aos riscos inerentes aqualquer procedimento", afirmou Roberto Luiz d'Avila, presidente da entidade.

Otexto aprovado pelo CFM afirma que "levando em consideração todos os pontosacima destacados, a realização do parto ocorra deve ocorrer ambiente hospitalarde forma preferencial por ser mais segura".

No entendimento do CFM, há um"falso antagonismo" entre o parto domiciliar e o parto hospitalar que ofuscauma preocupação real: a preservação da vida e do bem estar da gestante e dorecém-nascido.  "É importante estar consciente sobre o equilíbrio entreriscos e benefícios envolvidos nos procedimentos médicos, de forma geral, paraque as opções estejam legitimamente ancoradas em princípios bioéticos",justifica a entidade.

Em seu posicionamento, oCFM ressalta ainda que as autonomias do médico e da mulher devem serrespeitadas no âmbito da relação médico-paciente. No entanto, a "legitimidadeda autonomia materna não pode desconsiderar a viabilidade e a vitalidade do seufilho (feto ou recém-nascido), bem como sua própria integridade física epsíquica". 

Para o plenário, o trabalho de parto constitui processonatural e independente, o que sugere a desnecessidade de intervenções, salvo em condições especiais. Entre elas, está a não execução de determinados movimentospelo feto durante seu nascimento (distócia) e problemas que comprometem a saúdeda mulher (toxemia, hemorragias e infecções). 

"Estudos científicosimportantes comprovam que partos realizados em ambiente hospitalar tem menorrisco de gerar complicações, o que representa menores taxas de mortalidade e demorbidade para mães, fetos e recém-nascidos", ressalta o CFM em sua recomendação. Aentidade chama atenção também para a evolução do conhecimento, da tecnologia eda atitude assistencial, que propiciam melhores condições para a correção deeventuais complicações.

Artigo publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecologyencontrou uma taxa de morte neonatal de 0,2% (32 mortes em 16.500 nascimentos)em partos domiciliares planejados comparada a 0,09% (32 em 33.302 nascimentos) em partos hospitalares.

Ouseja, o número de mortes de crianças nos procedimentos realizados em casa éduas vezes maior que os que ocorrem em hospitais. As conclusões desse trabalhoforam baseadas em uma revisão sistemática da literatura médica que abraçou 237estudos encontrados, alguns deles conduzidos na Austrália, no Canadá, naHolanda, na Suécia, na Suíça, no Reino Unido e nos Estados Unidos. O relatóriofinal sugere que a menor intervenção obstétrica em partos domiciliares podeexplicar a mortalidade neonatal aumentada.

Outro trabalho, publicadono jornal científico Obstetrical &Gynecological Survey, em 2010, sugere que os aparentes benefícios deum parto planejado em casa - incluindo os de caráter psicossocial e de menosintervenções médicas - são potencialmente contrabalançados por um aumento dastaxas de mortalidade perinatal e neonatal.

Segundo o estudo, evidências sugeremque evitar o uso da tecnologia médica (como o monitoramento eletrônico dafrequência cardíaca fetal, por exemplo), pode representar um importante fatorde risco para ​​óbitos perinatais e neonatais evitáveis. Já British Medical Journal, em 2011, apontaque, para mulheres nulíparas [que nunca pariram] há evidências de que onascimento planejado em casa está associado a um maior risco de um resultadoperinatal adverso. 

O CFM considerou aindamanifestação da Comissão de Prática Obstétrica do American College of Obstetricians and Gynecologists, que semanifestou sobre o tema, em 2011. A entidade americana afirmou que os hospitais são oscenários mais seguros para o nascimento. Contudo, apesar de expressar respeitoao direito da mulher, reforçou que essas pacientes devem ser informadas dosriscos e benefícios envolvidos com base em evidências recentes.

Especificamente, deverá ser informado que, embora orisco absoluto possa ser baixo, o nascimento planejado em casa está associadocom um risco duas a três vezes maior de morte neonatal quando comparado  como nascimento hospitalar.

As mulheres devem ainda serinformadas sobre a seleção adequada de candidatas para dar à luz em casa, sobrea disponibilidade de um profissional habilitado e certificado dentro de umsistema integrado de saúde e regulamentado, da possibilidade de pronto acesso àconsulta e garantia de transporte seguro e oportuno para hospitaispróximos.  Esses cuidados - segundo o AmericanCollege of Obstetricians and Gynecologists - são fundamentais para aredução das taxas de mortalidade perinatal e obtenção de resultadosfavoráveis  ​​de nascimento em casa.

Os indicadores analisadosapontam um quadro preocupante no que se refere à mortalidade e a morbidadeentre mulheres gestantes e crianças na fase perinatal. Por ano, morrem no mundocerca de meio milhão de mulheres em consequência da gravidez, parto oupuerpério (período que se segue ao parto, pelo geral de 42 dias), ou seja,aproximadamente uma mulher a cada minuto. No Brasil, a razão de morte maternano país fica em torno de 55 casos para cada grupo de 100 mil, mais que o dobrodo indicador (20/100.000) recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com relação ao quadro perinatal, os dados também são ruins. A OMS estima cercade 5,9 milhões de mortes perinatais no mundo. A mortalidade no nascimento e nosprimeiros dias de vida expressa complexa conjunção de fatores biológicos,socioeconômicos e assistenciais, esses últimos relacionados à atenção àgestante e ao recém-nascido.

Óbitos ocorridos antes do trabalho de parto (anteparto)- relacionadas com complicações da gravidez - têm maior impacto nos paísesdesenvolvidos.  Já as mortes durante o trabalho de parto (intraparto)possuem maior relação com a inadequada assistência ao nascimento e são maisfrequentes nos países em desenvolvimento. Nestas áreas, menos de 40% dos partossão realizados em unidades de saúde na presença de pessoal qualificado paraatendimento ao nascimento.


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