Um mal que nem o amor consegue vencer

23/07/2012 09:46

 

Diário relata o drama de uma família que está separada pelas drogas

Reprodução

 

Fonte:DIÁRIO DE CUIABÁ
Autora:ALECY ALVES

“Deus, traz a minha mãe aqui para deitar comigo. Eu queria muito dormir com ela”. O apelo é da pequena Ana Beatriz, que só tem cinco anos, não sabe nada sobre drogas, mas compartilha com a mãe, os quatro irmãos, avós e tios um drama cruel imposto pela dependência da pasta-base. 

Tamanha é a saudade que a menina chega a adormecer abraçada a uma foto da mãe. Dona Francisca Maria Fernandes, 53 anos, a avó, diz que a neta vai além: faz carinho, põe a foto ao seu lado e a cobre com o mesmo cobertor que está usando. “Hoje vou dormir com minha mãe”, sonha. 

Ana Beatriz, que apreendeu a rezar indo à igreja com a avó, evangélica, faz o apelo todas as noites. E reclama: “minha mãe vem, mas logo volta”, como se estivesse se queixando de Deus por não atendê-la integralmente. 

A mãe de Ana Beatriz, Kedma Fernandes, 32 anos, é dependente de drogas, está grávida do sexto filho morando nas ruas de Cuiabá, onde se alimenta de restos ou de refeições doadas. Ela não sabe o tempo da gestação porque não faz o pré-natal, acompanhamento médico considerado fundamental durante a geração de um filho. Sabe quem é o pai, um usuário como ela, e acha que pode estar de 4, 5 ou 6 meses de gravidez. 

Nos últimos dias, Kedma tem dormido no mato, à margem do Rio Cuiabá, próximo do Atacadão do Porto, uma área que serve de abrigo para dezenas de usuários de drogas. Nesse local, as únicas visitas que os dependentes químicos recebem são de policiais, sempre para expulsá-los. 

Kedma, que já tem uma filha de 15 anos e fugiu de casa deixando ela e outros três filhos, inclusive o caçula, um menino de 1 ano e meio, aos cuidados da mãe e da irmã, confessa que está nas ruas não por falta de apoio e carinho família, mas por se sentir incapaz de abandonar a pasta-base. 

Sabe que os pais e os filhos estão prontos para recebê-la, tem certeza do amor que sente pelos filhos e da reciprocidade desse sentimento, mas conta que não consegue se afastar da droga e permanecer com as crianças. 

“Minha filha pode voltar a hora que quiser que as portas estarão abertas e a receberemos com carinho”, diz dona Francisca. Sem notícias há mais de 30 dias, ela ficou feliz ao saber que Kedma está viva e aparentando boas condições de saúde. 

A informação chegou à dona Francisca pela reportagem do Diário, que esta semana encontrou Kedma dormindo na margem do rio. “Liga para minha mãe”, pediu ela, fornecendo o número do telefone e o endereço. A reação de dona Francisca não poderia ser outra: muitas perguntas, entre lágrimas, em única frase. “Vocês estiveram com minha filha mesmo, onde, como ela está...? 

Poucas horas depois ela recebeu a equipe do Diário em casa, no bairro Maringá I, em Várzea Grande. Mãe e filha estão separadas por uma distância curta, menos de 3 quilômetros, mas vivem em mundos completamente diferentes. Dona Francisca não conhece drogas, enquanto a filha já experimentou praticamente todas, desde maconha, passando por cocaína até chegar na pasta-base. 

“Não sei mais o que fazer, parece que ninguém pode nos ajudar. Minha única esperança é Deus, meu Senhor, por quem tenho orado e ajoelhado pedindo por minha filha”, desabafa a mãe.

A família de Kedma Fernandes precisa urgentemente da presença do poder público, de assistência em saúde, social, psicológica e jurídica. 

Dona Francisca Fernandes, que não pode sair para trabalhar porque cuida dos netos, diz que o marido está desempregado, o que cada dia torna mais difícil alimentar as crianças. 

Até a ajuda do Bolsa Família foi suspensa porque Kedma não fez o recadastramento do filho, atribuição exclusiva dela, que permanece com a guarda das crianças. “Minha filha precisa de um lugar onde possa permanecer internada, já tentei fazer isso sozinha e não consegui”, diz dona Francisca. 

Os cinco filhos de Kedma estão assim distribuídos: a avó materna assumiu dois netos, Ana Beatriz e o menino de 9 anos; a mais velha e o caçula vivem com a tia materna e uma menina de 10 está com o pai e a madrasta, morando nos fundos da casa da avó paterna. 

Dona Francisca diz que até agora o caçula não tem registro de nascimento porque Kedma não o fez, pois quase não tem mais dias de sobriedade. Mesmo assim, ela não critica a filha, ao contrário, diz que quando não está sobre o efeito das drogas a filha é uma mãe dedicada e uma dona de casa exemplar. “Ela é carinhosa e muito zelosa. A casa fica um brilho”, derrete-se. 

O desejo de dona Francisca é que a filha seja internada, faça o pré-natal e seja operada para não ter mais filho assim que o sexto bebê nascer. E ainda, de ficar com a guarda dos netos até e Kedma possa se tratar do vício e ser considerada capaz de assumir a maternidade.

Goiano perdeu mulher e filhos

Aos 24 anos, Luciano Lopes dos Santos também figura entre os brasileiros que vivem à margem da sociedade por causa da dependência química. Assim como Kedma Fernandes, ele se abriga no mato, à margem do rio Cuiabá, onde usa droga e passa noites ao relento, exposto a todo tipo de situação. 

Também como Kedma, tem uma família e não está nas ruas por falta de amor e carinho. Entretanto, a mãe dele, sua referência de lar, vive longe, em Aparecida de Goiás, região metropolitana de Goiânia, a pouco mais de 800 quilômetros de Cuiabá, e não sabe se o filho está vivo ou morto. 

Luciano conta que a mãe, Zenilda Lopes Pinto, sempre tentou ajudá-lo, desde o primeiro momento que descobriu que usava drogas, mas é ele quem não consegue de libertar da pasta-base. “Tenho muita vontade de voltar pra casa, mas será difícil se eu continuar usando droga”, diz. Ele não fala com a mãe há pelo menos 2 anos. 

Para Cuiabá, conta, veio com a mulher, Ludinalva, com quem tem dois filhos, mas os dois brigaram por causa da pendência dele às drogas e ela voltou para Goiás com as crianças. 

Aqui, relembra, passaram alguns meses num abrigo municipal, de onde ele saía para procurar trabalho e acabava passando dias fora consumindo a pasta-base. Ele também não tem notícias da ex e dos filhos. 

A mãe de Luciano, conforme relatou, sofre não somente com a ausência dele, mas pelo assassinato do irmão, Cleiton, que morreu em circunstâncias misteriosas.

 


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